Domingo, 5 de Julho de 2009

ELOGIO AO AMOR
O meu amor tem quatro tempos. Tem imagens e diálogos que se completam em telas duplicadas. Tem falas em preto e branco. Tem olhares nas cores todas. Tem passado em verde-limão, em sépia, em vermelho rubi. O meu amor tem ritmo descontínuo. Tem inquietação. Tem tranquilidade. O meu amor não é pronome possessivo. O meu amor tem pronomes de ângulos oblíquos. Tem teoremas que escapam entre as expressões.
Elogio o amor para conservá-lo. Para sentí-lo sempre por perto. Para aprender sobre o cuidado das coisas todas. Das que não vejo. Das que não entendo. O meu amor tem alguns traços de Godard.

Terça-feira, 23 de Junho de 2009

O PLURAL DOS OUTROS LUGARES
Ela já tinha dançado alguns descompassos, em outros passos, usando outros sapatos. Era dona de trechos ritmados. Era dona do plural dos outros lugares. Lugares que não eram seus de fato. Lugares que já foram conjugados. Fora dos modos. Fora dos gêneros todos.

Domingo, 31 de Maio de 2009

O EXERCÍCIO DAS PEQUENAS COISAS


Os dias têm sido curtos demais para o amontoado de prazos que têm se acumulado. Mas ainda são suficientes para o exercício das pequenas coisas. Dos mais recentes, tem a repetição de abraços apertados na chegada da Giseli, que após alguns anos em Portugal, resolveu voltar para casa, para os amigos, para as pequenas (grandes) coisas. E na chegada ao aeroporto, senti(mos) aquele friozinho típico de quem está morrendo de saudade, de quem precisa dizer tudo que se passou até então, mas que só se consegue compartilhar alguns abraços apertados. Hoje também foi um dia assim, cheio de pequenos (grandes) gestos de gentilezas. Algumas horas se passaram e a imagem do Júnior, correndo entre as plataformas, com um sorriso delicioso, de quem está mais que atrasado, só para me dar um abraço e vários beijos, valeu o dia, o cansaço, as horas todas. E a gentileza do André, ao nos proporcionar aquela cena toda, me faz abrir alguns parênteses, e abusar das reticências (...) Adoro vocês. No superlativo.
Ludov - Princesa

Domingo, 10 de Maio de 2009

OUT-DOOR
Chega de poesia-espetáculo. Chega de apreender saudade anônima. Não quero a tua poesia concreta dispersa nos caminhos que não são mais meus. Chega de lugar comum. Os versos que te faltam não precisam de manifesto algum. O lirismo precisa ser urgente. Mesmo tempos depois. Saiba: de tudo resta um pouco.

Domingo, 5 de Abril de 2009

POESIA EM LINHA RETA

Escrevo poesia em linha reta, sem espaços, em parágrafos, porque é assim que você me lê. Se fosse poesia como todas as outras, seria arte. E eu não preciso que perceba tendências, gêneros e advérbios em mim. Escrevo em primeira pessoa para não denunciar uma segunda. Abuso de disfarces desnecessários. E rejeito interjeições.
["... Acenderei luzes na minha porta
e falaremos só o necessário."
Hilda Hilst]

Terça-feira, 24 de Março de 2009

"AS PEÇAS SE ENCAIXAM.
NÃO HÁ NADA A SER EXPLICADO"



Foram quase duas horas e meia de show. Uma sequência de acordes perfeitos ao coro das 30 mil pessoas ali presentes. E sem superlativos desnecessários, ouvir Radiohead de perto é privilégio. É lirismo na medida certa. É arritmia minimalista como deveria ser. Fazer parte dos tais 30 mil em "Paranoid Android" na noite de 22 de março de 2009 é dizer que, no final da música, 30 mil vozes continuam a música, fazendo com que Thom Yorke, só com o violão, acompanhe o show que não é mais dele, mas de todos. "Fake Plastic Trees", na sequência, é quase redentor. E conjulgar Radiohead é mais-que-perfeito. Se todos ali esperavam dois "bis", Thom Yorke volta para o terceiro perguntando "advinha o que vamos tocar" , terminando com Creep.
O Just a Fest teve Los Hermanos. E antes também teve Kraftwerk. Mas hoje eu só consigo falar de Radiohead - se é que vocês entendem.
Créditos às companhias perfeitas: Dani, Ricardo, André e Danilo.

Terça-feira, 3 de Março de 2009

TAKE IT BACK

Também quero uma desculpa para repetir o passado do particípio. A falta do subjuntivo. A sequência de todos os outros tempos. Quero de volta o riso contido, o cuidado desajeitado, os acordes inacabados. Quero de volta o que ainda não é meu de fato. Traços em todas as cores, falta de pudores. Quero sentir o gosto do seus acordes como se pudesse tocá-los entre os dedos.
Pink Floyd - Take It Back

Quinta-feira, 19 de Fevereiro de 2009

QUASE CARNAVAL

Eu me distraio porque é véspera de todos os outros carnavais. Provoco incoerências porque é véspera de coisas desimportantes. Visto intransigências porque até antes de ontem as cores todas não me faziam colombina. Paro o mundo e seus arredores porque meu [quase] carnaval é sétima arte.

Nouvelle Vague - I Melt With You

Segunda-feira, 9 de Fevereiro de 2009

DOS GIRASSÓIS

Demorei um tempo para conseguir vir até aqui. Não que não quisesse, mas eu precisava saber mais de você além daquilo que já conhecia. Também precisava ouvir todos os seus discos e isso leva tempo. Por isso, talvez, o que te escrevo não é simétrico. Talvez nem deveria ser. Não para você, que sempre preferiu os girassóis às outras flores. Não para você que ouvia música como se pudesse olhar pra ela [...] Eu te conto para os outros. Eu te mostro para quem não te conheceu. Te empresto o que nem sempre é meu de fato.

Quarta-feira, 14 de Janeiro de 2009

IMPERATIVO
Eu te ensaio em brevidades informais. Te dou predicados. Te empresto poesia desprovida de estética. Te invento prudência. Mudo o nome das coisas. Não te deixo ter razão. Te entrego todas as minhas vontades. Erro em princípio participativo. Mudo os tempos. Ignoro parapraxias. Invento distorções kantianas sem reservas. Te faço linguagem própria. Te dou minhas referências todas. Mudo todas as silabas. Te faço imperativo. Te deixo sem métrica.